+QP: Mais do que um simples esbarrão

 
   Distraída, desastrada, desligada, tantos ''dês'' nos adjetivos que a descrevem. Segunda-feira, mês de Setembro, ás 6h30 da manhã, ela cruza as catracas do metrô e como sempre esbarra em alguém. "Oh meu Deus! Me desculpe!" e já sai andando rápido sem nem ouvir a réplica. "Metrô lotado, como sempre. Humf!" ela pensa assim que as portas se abrem e ela se apressa pra garantir o único lugar. Todos os dias são assim, mesma rotina, mesmas atitudes, mesmos esbarrões...

   Subindo as escadarias pra sair daquele mundo subterrâneo, ela esbarra em mais alguém que estava vindo em direção contrária. Mas dessa vez não teve tempo nem de pedir desculpas e já ouviu um ''Eita, caramba! Desculpa aí moça'' e pela primeira vez ela levanta o olhar para encarar a pessoa com quem esbarrou. Um cara razoavelmente alto, barba feita, cabelo naquele estilo bagunçado mas arrumado, com cara de sono.

   - Quero dizer, se quiser posso esbarrar em você outra vez. - Falou o cara, sorrindo
   - Beleza, deixa eu descer e você sobe, daí a gente se esbarra de novo então. - Respondeu ela, rindo.

   Sabe aqueles segundos que se passam em câmera lenta nos filmes? Pois é, foi bem assim. Ela continuou olhando pra ele com um sorriso bobo e foi embora. Não sabia onde estava com a cabeça pra falar aquele tipo de coisa, ainda mais em voz alta. Ela não era do tipo ousada, ou extrovertida. Como então pode fazer isso? Ela não tinha a minima ideia. Mas sabia que sua rotina tinha sido mudada, sua mesmice do dia a dia tinha sido rompida e ela se sentiu feliz por isso. Muito feliz.

   Mas feliz por isso? Só por um esbarrão em um cara? Por uma troca de palavras? Sim, só por isso. Ela não se sentia diferente, não se sentia especial, não se sentia bem faz tempo. Aqueles problemas de insegurança a afetavam demais e já estava até fazendo parte dela. Fora a mesmice, era sempre a mesma coisa, nada mudava, tudo parecia tão tedioso e tão automático. Aliás, ela sempre estava no piloto automático. Acordava, se arrumava, ia pro trabalho, depois almoçava, voltava pro trabalho, ia pra faculdade, voltava pra casa, mexia no computador e dormia. Tudo isso no modo repeat.

   Aquele esbarrão junto com aquela atitude de ''dar em cima de um cara'' fez ela quebrar tudo isso. Fez ela perceber que podia mudar seu dia, podia mudar suas atitudes, podia tomar um novo rumo. ''Eu ainda não acredito que respondi ele desse jeito'' pensou ela, sorrindo para o chão. Estranho pensar que um simples esbarrão tinha feito ela parar pra pensar em toda a sua vida dos últimos dias. Talvez porque aquele simples esbarrão não tenha sido tão simples assim. Ela já tinha esbarrado tantas e tantas vezes em pessoas que nem se quer lembra os rostos.

   Mas do rosto dele ela se lembra, e muito bem. Foi um daqueles ''amores de metrô'' que provavelmente não iria dar em nada. Realmente não deu. E ela não estava triste por isso, estava se sentindo aliviada. Aliviada consigo mesma, aliviada por saber que ela é quem faz a vida dela, que ela ainda é vista, que ela tem a chance sim de mudar e por que não mudar? Por que não sair da mesmice?

   Hoje ela agradece em pensamento aquele cara, que poderia ter sido qualquer outra pessoa que esbarrasse em sua vida e rompesse o lacre, deixando que novas possibilidades invadisse seu peito. Depois daquele esbarrão ela percebeu que as mais simples coisas, podem ajudá-la e mudar o rumo da sua vida. Mas até hoje ela se pergunta: ''Quantos esbarrões foram necessários pra que eu acordasse?''

| O tema desse post (mulher e ficção) faz parte de um projeto chamado +QP, ou Mais Que Palavras, onde mensalmente será liberado um assunto a fim de estimular a escrita e a criatividade de blogueiros |

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Comentários

2 comentários:

  1. Amores breves de metrô sempre fazem sorrir, né? Belo texto, deu uma aquecida no coração deste lado da tela até... Demais! ^^
    Beijo!

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    1. Sempre Min, incrível! Fico feliz por ter gostado do texto :) Volte sempre!

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